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Ainda Estou Aqui - A dureza que não podemos esquecer

Poster de Ainda Estou Aqui

Os filmes baseados em factos reais são sempre mais fáceis de chocar ou criar emoções, mas Ainda Estou Aqui vai mais além e mostra como quebrar os clichês e fazer muito sem necessitar de sensacionalismo.


Durante a ditadura militar do Brasil, uma mãe vê toda a sua vida ser quebrada e reinventada pela dureza da injustiça.


A minha sinopse está longe de ser apelativa, mas por experiência própria, posso escrever que ir ver o filme sem grandes conhecimentos não estraga de todo qualquer visualização. Apenas sabia que se tratava de um filme brasileiro, sobre a época da ditadura e que estava a ser elogiado, mas quando saí, senti uma sensação de reflexão e quase medo.


Eunice Paiva e os filhos

Tudo é colocado no lugar certo, desde os cenários, até aos figurantes, e a calma com que todo o argumento é criado é de uma mestria espetacular. Apesar de estarmos a assistir a uma família que parece viver feliz e sem grandes problemas, somos sempre abraçados por um sentimento de insegurança, como se de um momento para o outro tudo fosse ruir, e muito deste sentimento, se deve à incrível representação de Fernanda Torres, como Eunice.


Uma mãe de família que nos baixa a guarda e parece estar sempre em alerta, com alto conhecimento de tudo o que lhe rodeia, mas sem nunca deixar de mostrar um sorriso ou mostrar calma no meio de todo o corrupio que era aquela casa.


Fernanda Torres é uma diva que ensina muitos atores e atrizes de renome, sobre o que é representar. Não cai em exageros, gritos ou lágrimas superficiais, pois sabe o que a personagem lhe está a pedir e o que tem de fazer para passar a mensagem. Até mesmo nos momentos mais sufocantes é capaz de nos fazer sentir o seu sofrimento, e na maioria das vezes sem ter de usar palavras sequer.


Fernanda Torres como Eunice no carro da polícia

Outro ponto essencial de destaque para se diferenciar de outras obras biográficas, e mesmo para destacar o papel de Eunice em toda a família, é a não necessidade de inventar. É verdade que a obra é baseada no livro de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice Paiva, e como tal é mais fácil ter acesso a todos os dados, mas reparemos que não se tentaram criar imagens da prisão de Rubens, para chocar. Essa ausência serve também para criar, em nós espetadores, a sensação de desconhecimento e ausência que a família sofria.


Walter Sales volta a construir uma obra de arte e a colocar o cinema brasileiro no topo. Quem diria que investir na cultura e ter produtoras que não exigem exageros e argumentos supérfluos traria resultados… Está na hora de começar a aprender que o talento não existe apenas em Hollywood e que olhando para algo mais do que as histórias já contadas e repetidas podemos fazer mais da nossa cultura cinematográfica.


Fotografia dos dias felizes da família Paiva

Ainda Estou Aqui surge sem esconder a dureza daqueles tempos de ditadura, onde qualquer um era preso, torturado e até morto sem justificação. Tempos onde o ódio reinava e poucos dominavam muitos. Vivemos tempos abalados onde saudosistas tentam reerguer estas ditaduras um pouco por todo o mundo, e é por isso mesmo que são necessários filmes como o Ainda Estou Aqui. Filmes sem medo de mostrar que foram tempos duros e injustos, mas que podem regressar rapidamente, pois a linha que os impede de voltar é muito ténue e depende de nós para o impedir.


Quanto a nomeações já são algumas nas grandes premiações, e na premiação da Academia são três, na de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Atriz Principal e a grande nomeação a Melhor Filme do Ano.

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