Ainda Estou Aqui - A dureza que não podemos esquecer
- João Maravilha
- 15 de fev.
- 3 min de leitura

Os filmes baseados em factos reais são sempre mais fáceis de chocar ou criar emoções, mas Ainda Estou Aqui vai mais além e mostra como quebrar os clichês e fazer muito sem necessitar de sensacionalismo.
Durante a ditadura militar do Brasil, uma mãe vê toda a sua vida ser quebrada e reinventada pela dureza da injustiça.
A minha sinopse está longe de ser apelativa, mas por experiência própria, posso escrever que ir ver o filme sem grandes conhecimentos não estraga de todo qualquer visualização. Apenas sabia que se tratava de um filme brasileiro, sobre a época da ditadura e que estava a ser elogiado, mas quando saí, senti uma sensação de reflexão e quase medo.

Tudo é colocado no lugar certo, desde os cenários, até aos figurantes, e a calma com que todo o argumento é criado é de uma mestria espetacular. Apesar de estarmos a assistir a uma família que parece viver feliz e sem grandes problemas, somos sempre abraçados por um sentimento de insegurança, como se de um momento para o outro tudo fosse ruir, e muito deste sentimento, se deve à incrível representação de Fernanda Torres, como Eunice.
Uma mãe de família que nos baixa a guarda e parece estar sempre em alerta, com alto conhecimento de tudo o que lhe rodeia, mas sem nunca deixar de mostrar um sorriso ou mostrar calma no meio de todo o corrupio que era aquela casa.
Fernanda Torres é uma diva que ensina muitos atores e atrizes de renome, sobre o que é representar. Não cai em exageros, gritos ou lágrimas superficiais, pois sabe o que a personagem lhe está a pedir e o que tem de fazer para passar a mensagem. Até mesmo nos momentos mais sufocantes é capaz de nos fazer sentir o seu sofrimento, e na maioria das vezes sem ter de usar palavras sequer.

Outro ponto essencial de destaque para se diferenciar de outras obras biográficas, e mesmo para destacar o papel de Eunice em toda a família, é a não necessidade de inventar. É verdade que a obra é baseada no livro de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice Paiva, e como tal é mais fácil ter acesso a todos os dados, mas reparemos que não se tentaram criar imagens da prisão de Rubens, para chocar. Essa ausência serve também para criar, em nós espetadores, a sensação de desconhecimento e ausência que a família sofria.
Walter Sales volta a construir uma obra de arte e a colocar o cinema brasileiro no topo. Quem diria que investir na cultura e ter produtoras que não exigem exageros e argumentos supérfluos traria resultados… Está na hora de começar a aprender que o talento não existe apenas em Hollywood e que olhando para algo mais do que as histórias já contadas e repetidas podemos fazer mais da nossa cultura cinematográfica.

Ainda Estou Aqui surge sem esconder a dureza daqueles tempos de ditadura, onde qualquer um era preso, torturado e até morto sem justificação. Tempos onde o ódio reinava e poucos dominavam muitos. Vivemos tempos abalados onde saudosistas tentam reerguer estas ditaduras um pouco por todo o mundo, e é por isso mesmo que são necessários filmes como o Ainda Estou Aqui. Filmes sem medo de mostrar que foram tempos duros e injustos, mas que podem regressar rapidamente, pois a linha que os impede de voltar é muito ténue e depende de nós para o impedir.
Quanto a nomeações já são algumas nas grandes premiações, e na premiação da Academia são três, na de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Atriz Principal e a grande nomeação a Melhor Filme do Ano.






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